O achado da semana...
Deveria começar este post com o resumo desta última semana, mas vou deixar para fazê-lo mais adiante. Sim, estou adiando... Não por um longo tempo, apenas por hoje.A verdade é que queria deixar um arquivo-texto que encontrei em um de meus cds de backup, da primeira formatação deste PC. Um achado, porque eu mesma tinha esquecido dele.
Com este conto encerrei minha cadeira de Português para a Comunicação I. Nesta oportuinidade estudamos apenas contos descritivos e narrativas, pois fazia parte do planejamento de conteúdos dentro desta disciplina aprimorar estes tipos de escrita, formas textuais. Foi pela avaliação deste conto que obtive a média final do semestre na cadeira. Valeu o esforço, pois a recompensa veio (além do próprio professor ter me oferecido um estágio na época).
Fica então o meu "achado" postado aqui...
Thiex.
A Hora da Ceia
Cai a noite silenciosa. Uma fina e esparsa garoa ameniza o ar abafado depois de um sol escaldante neste vinte e quatro de dezembro. O Palacete, da Rua Vergueiros, estápreparado para as festividades de Natal. Altos pinheiros iluminados acercam e contrastam com os moldes europeus de sua estrutura. Às oito horas, o relógio suíço do século XVIII, espalha suas badaladas como se avisasse a todos que a hora da ceia chegará em breve. Nos cômodos do casarão, Maria Helena e Adalberto vestem seus trajes de gala. Carlos, o único filho do casal, permanece ainda com seu livro de Direito Romano nas mãos. Mesmo nos dias de festa o rapaz de profundos olhos e cabelos negros, tímido por natureza, não se separa de seus melhores companheiros os livros.
Na cozinha a movimentação começara cedo. As bebidas foram condicionadas à refrigeração com dois dias de antecedência. O melhor Buffet da cidade foi contratado devido à importância deste acontecimento. Aos poucos, os empregados montaram no salão principal, onde se destacam nas vastas paredes os quadros de Monet, as mesas com suas decorações compradas na Europa. Velas, coloridos arranjos de flores eram colocados juntamente com os aperitivos para degustação. A família de Carlos sempre prima pela organização de suas festas e cerimoniais. Não há na sociedade gaúcha quem prepare recepções e festas como os Albuquerque... Esta notícia corre nas colunas sociais dos principais jornais da capital.
Adalberto, um advogado de sucesso, no alto de seus 50 anos, mostra-se com entusiasmo contagiante. Apesar do rigor com que conduz seu escritório, tem como adjetivo maior àcordialidade. Sua simpatia aparente esconde a maneira bruta como cuida da educação de seu filho. Isto se deve ao fato de Carlos ter hesitado na escolha de sua carreira:
- Esquece essa história de arte moderna. Não terá futuro, posição e dinheiro. Faráo curso de Direito. Ser um advogado bem sucedido não é simplesmente ter vocação, mas, sim, inteligência e perspicácia. Esta é a profissão de um verdadeiro homem...
Maria helena , com sua docilidade nunca manifestou sentimento de contrariedade com as atitudes do marido. Sempre criou o filho com liberdades, condenadas por Adalberto, e assim conquistou a confiança deste desde pequeno. Em seu colo, o filho procura o consolo para a agressividade do pai. Reprimido seria a palavra correta ao definir Carlos Albuquerque.
Com o soar do antigo relógio, mais uma vez, às nove horas, os primeiros convidados apontam à porta da frente da casa. Todos trajados a rigor aguardam ansiosamente a entrada dos anfitriões. A Ceia foi marcada impreterivelmente para às vinte e duas horas. Fotógrafos e jornalistas das principais colunas sociais andavam de um lado a outro do imenso jardim, onde flores da estação exalavam um perfume doce, no intuito de registrar alguma cena que expressasse e demonstrasse os sentimentos dos presentes no local.
Ao entrar no salão, Valquíria encontra em uma estante de mogno, lustrada e vistosa, a foto de sua colação de grau com a amiga Maria Helena. Em um momento ela enche os olhos de lágrimas, mas impede que estas transcorram em seu rosto. Emocionada, olha para o marido e os filhos e suspira: - Há quantos anos não encontro minha eterna companheira, Maria Helena?Como pude me afastar tanto tempo? Pensa em silêncio.
Eis que o grande momento chegou: Maria Helena, Adalberto e Carlos são anunciados. Da escada, que despenca em forma de um L sobre o hall, descem calmamente pai e filho. Em dado momento, Carlos avista uma bela e altiva mulher. De olhos azuis, longos cabelos louros, braços e contorno dos seios àmostra, completa-se a figura de uma bela deusa da mitologia Grega. Quem seria aquela distinta senhora?Questiona-se.Sua mãe entra juntamente com o ovacionar dos convidados. Estava com um deslumbrante vestido longo negro, casado com um belo colar de diamantes. A agradável música, ao som de violinos, dá inicio da festa. Logo, Adalberto une-se aos homens para apreciar um bom uísque e conversar sobre seus processos. Maria Helena responde as entrevistas com cuidado e trata de saciar a necessidade dos mais curiosos com detalhes de como preparou-se a recepção. Carlos retira-se ao jardim calado. Não se sente à vontade com a fumaça dos charutos, tão pouco com as conversas dos mais velhos. Os jovens de sua idade parecem alienados, rodeando as repartições da casa à procura de algo que não se entende. Chegando em seu canto predileto, onde havia um balanço que fora seu em toda infância, olha e fica perplexo por alguns segundos. Lá estava a bela mulher que avistou antes. Aproximou-se, deixando a timidez de lado, iniciando um breve diálogo:
- Olá, parece que nunca a vi por aqui. Qual sua graça, senhora?
- Me chamo Valquíria. E o rapaz, quem é?
- Sou Carlos, ao seu dispor.
- Mesmo não o conhecendo há tanto tempo presumo sua boa educação. Mas não me chame de senhora, por favor. Qual sua idade?
- Possuo vinte e três anos completados no início deste mês, senhora.
- Veja, tenho idade suficiente pra ser sua mãe, mas insisto para que me chame simplesmente por Valquíria...
Pelo menos uma hora havia passado e Valquíria e Carlos continuavam parados, trocando de conversa, esboçando pensamentos e risos. Dentro do palacete estavam todos se preparando para sentar àmesa. Carlos convida a jovem senhora para adentrar ao salão, já que a ceia iria começar. Valquíria, esquece dos degraus do caramanchão e começa a cair lentamente, quando de súbito, Carlos a segura pela cintura. Os olhares de ambos encontram-se. As mãos quentes de Carlos percorrem o corpo de Valquíria rapidamente. Os lábios se tocam e naquele instante tudo parece estar parado em seu redor, não fosse a voz de seu pai a ecoar pelo jardim. Desprendidos do estado de transe, ou hipnose, Carlos e Valquíria recompõem-se, a fim de não despertar suspeitas de seu ato ilícito.
De volta ao salão, Valquíria e Carlos são avistados por Maria Helena que se aproxima:
- Valquíria! Como não a encontrei antes! Que bom te rever depois de tantos anos...
- Que bom revê-la! Passei tantos anos fora do Brasil e logo ao chegar recebi os convites para a ceia. Pensava que tinha esquecido desta velha amiga...
As lembranças vêm à mente de Carlos. Aquela distinta senhora era, então, a amiga de quem sua mãe sempre lhe contara. Valquíria, esse era o seu nome! Como poderei tê-la novamente?Que seráde mim?Pensa ele.
Maria Helena apresenta o seu filho:
- Este é Carlos Henrique, meu único filho. Onde está seu marido e filhos? Eles vieram?
Para espanto de Valquíria, aquele belo e ardente rapaz era o filho de sua melhor amiga. O mal ainda podia ser remediado, pensava com segurança. Os olhos dos amantesdistanciavam-se aos poucos. Carlos, diz-se indisposto, e retira-se a seus aposentos. A ceia começa. Depois da abertura oficial com discursos e brindes, Valquíria disfarça sua saída e caminha em direção ao toalete. Consegue, enfim, adentrar os cômodos à procura de Carlos. Já recuperado da leve dor de cabeça, Carlos abre a porta e entra no corredor. Encontra ali, Valquíria. Ao tentar abraçá-la é empurrado com alguma força:
- Não podemos continuar com isso. Não sabes quem sou??Pára já.
- Como poderei evitar? Foi paixão à primeira vista; é um sentimento que nunca esbocei por nenhuma outra pessoa...
- Estou aqui exatamente pra dizer que nunca se repetirá nenhum ato como aquele ocorrido no jardim. Esqueça-me! Esqueça daquele beijo! Esqueça!
- Se eu pudesse arrancaria dos lábios o gosto do beijo. Mas meu coração não me permite... Amo-te, senhora!
Valquíria olha para Carlos e o deixa sozinho no corredor. Nada podia fazer contra o que o rapaz sentia. Afastou-se. Disse ao marido que estava com forte dor de cabeça. Despediu-se da amiga, de outros poucos conhecidos e partiu. Carlos assistiu a cena imóvel, pálido, sem esboçar reação. O que poderia fazer sem sua deusa, sua súbita paixão? Não suportando a rejeição da amada, dirige-se a seu quarto, pega o estilete, e golpeia profundamente um de seus braços. Guarda o grito da dor em seu peito. Com os sons dos violinos ao fundo e tomado pela revolta e pela dor desfere mais um golpe... E este sim, o fatal.